segunda-feira, 18 de abril de 2016

Os números das coisas ou as coisas dos números.


Pintura de Alexandra Nechita

Qualquer palavra a mais por mim dita, pode correr o risco de a verdadeira essência não ser descrita nessa mesma palavra. Vivemos um tempo em que, a avaliação ou selecção de pessoas tem muito que se lhe diga. Tratando-se de um inequívoco darwinismo social numa sociedade altamente hierarquizada. Sociedade essa, onde as pessoas são tratadas como meros números e isso começa a ser mais que evidente no ensino secundário, teremos uma avaliação quantitativa e não assente na qualidade, onde decorarmos matéria para um exame específico que no dia seguinte não nos lembraremos de nada. Para não falarmos nos critérios de correcção que na sua maioria formatam a interpretação do texto, da pergunta, o que for. Quando existem diferentes formas de ver o mundo. Nas ciências exactas é que sabemos que só há um resultado possível e temos de o encontrar. E isto, irá influenciar toda a nossa vida nos próximos 60 anos no mínimo, pois, teremos de ser quantificados segundo certos critérios que determinará a média que permitirá entrar nesta ou naquela licenciatura, neste ou naquele mestrado e segue-se o doutoramento pela mesma lógica, cerca de 22 anos passaram desde que nos sentamos muito nervosos pela primeira vez num banco da escola, onde nos últimos 22 anos passamos cerca de 15 horas por dia e percebemos que não conhecemos os nossos pais, os nossos amigos e muito menos a nossa namorada e nós não respeitamos quem não conhecemos.

E caso, não tivéssemos percebido que assim é. Portugal, um pais de poetas com uma das línguas que melhor poesia dá ao mundo e que sem qualquer dúvida une milhões em entorno de única pátria, que é a nossa tão amada Língua Portuguesa, a língua da palavra intraduzível, Saudade. Faz questão de nos lembrar dessa condição. Quando começamos a aprender a ler poesia, aprendemos a ler poesia de forma quantitativa ou objectiva e não subjectiva. Aprendemos a dissecar as obras de Cesário Verde, de Fernando Pessoa ou simplesmente Os Lusíadas, a contar versos ou figuras de estilo. Tendo-se com a poesia o primeiro impacto com a economia financeira e com as desigualdades socias quando temos de observar e quantificar as rimas entre ricas ou pobres. Mas, se escrevo um poema a uma rapariga que goste e admito, faço-o várias vezes e, se lhe tento demonstrar o quanto genial sou no uso de rimas bilionárias na sua riqueza ou de figuras de estilo que Camões, Soares de Passos ou Alvares de Azevedo jamais ousou pensar e na simplicidade da minha moléstia mensagem não lhe conseguir transmitir o que verdadeiramente sinto por ela, de que me serve ser genial, escrever o que ninguém ousou pensar antes de mim… Muito menos me serve, ser ilustrado na Filosofia, ler Platão ou Kant, quando não consigo descrever na minha escrita, a sua ínfima beleza e o que por ela sinto. E, ela na sua genialidade de ser humano nunca mais me dirigirá uma palavra.

Como se tudo isto não chegasse, há o pensamento pré-socrático, um pensamento de transformação constante, tudo pode mudar da noite para o dia, que é refletida e observável na obra de Homero por exemplo. Depois há o pensamento pós-socrático que estabilizou as coisas, temos a noção do nosso eu, da nossa pequenez, do tempo e do infinito. Dando-se logo de seguida as boas-vindas a Platão com a vinda da idealização, do modelo a seguir, o amor platónico é isso mesmo. O seguir no facebook, no twitter, no instagram, no que for, o que interessa é seguir tendências, sejam boas ou más. E, é este pensamento que vigora à 2500 anos e que deu origem à religião monoteísta, idolatrar uma única identidade divina numa sociedade que rapidamente passou de politeísta para monoteísta, de comunidade, de diversidade para individualista, do culto do EU e que actualmente está em declínio ou não como defendem muitos catedráticos de qualquer coisa que agora infelizmente não me recordo mas, de nome pomposo certamente.

No Século VII, observamos a origem do Islão e no que inevitavelmente lhe deu origem. Tínhamos o Império Romano e Persa corrompido, a chamada elite ou a nobreza por ser uma palavra mais lidima, seja escrita ou dita. À boa vida e o povo, os chamados plebeus, nada tinham e observando a actualidade nada disto se passa e prova que evoluímos tanto quanto a sociedade existente no Século VII, sem quaisquer dúvidas que alguém possa questionar.

E, para finalizar e como do passado somos sempre o seu reflexo. No fim do Século XVIII, um Sociólogo, Economista e Sacerdote Anglicano chamado Thomas Robert Malthus. Celebrizou-se por uma obra sua, um Ensaio sobre o Princípio da População, uma obra de sociologia e demografia publicada em 1798 e, que mais tarde influenciou directa ou indirectamente algumas das ideias de Keynes. Em que, defendia que a produção de alimentos cresce numa progressão aritmética, enquanto que a população tem a tendência de aumentar em progressão geométrica. Explicando o sucedido, uma progressão é uma sucessão de números, em que, um dos factores depende do anterior sempre pelo mesmo processo. Ora bem, uma progressão aritmética é aquela que se soma ao número anterior uma constante, logo uma progressão aritmética é 2, 5, 8, 11, e 14, porque somando a constante 3 ao número anterior obtém-se o número seguinte. A progressão geométrica é igualmente uma sucessão de números, onde  o número a determinar depende do anterior por um factor, é um produto, digamos assim. Significando que, o número a determinar depende do anterior por um factor, que para haver equidade na explicação para com a progressão aritmética terá obrigatoriamente de ser uma progressão geométrica de razão 3, assim sendo, temos 2, 6, 18, 54, e 162. Agora vejamos, na progressão aritmética, de 2 passamos para 14 e é como se multiplicássemos por 7. Na progressão geométrica, de 2 passamos para 162 e é como se multiplicássemos por 81. Em suma, isto quer dizer que a população cresce segundo uma progressão geométrica e a produção de alimentos cresce numa progressão aritmética. Ou seja, a inevitável consequência desta diferença na proporção das duas progressões, segundo Malthus, será uma crescente miséria na população, pobreza extrema e fome permanente. Defendendo também, que sempre que estes problemas chegam no seu estado máximo, a própria natureza intervém, corrigindo-os por meio de guerras e epidemias, reduzindo desta forma violenta e drasticamente a população. Curiosamente, na Revolução Francesa o povo pedia comida, prometiam-lhe pão, mas pão não havia. Hoje, o povo pede comida, prometem-lhe esperança, mas esperança não há. A falta de ética, de moral, enchem-nos o pensamento da mais pura hipocrisia existente. Ouvindo-se e lendo-se por toda a comunicação social que os autores dos atentados de Paris e de Bruxelas são de bairros mal afamados. Exacto, são de bairros mal afamados e nunca de bairros pobres, porque a semântica suaviza a mensagem porém, não suaviza a realidade.

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